terça-feira, 15 de maio de 2012

Malmequer

O malmequer era aquela flor que eu agarrava quando chegava a primavera e da qual retirava uma pétala de cada vez, enquanto dizia bem me quer, mal me quer. No final da ladainha o sentimento podia ser de felicidade ou de tristeza, como se a flor pudesse reunir em si sentires bons ou sentires maus, e os deixasse transparecer para dentro do corpo através dos meus olhos, da minha pele, do cheiro adocicado dela. Hoje vi muitos amarelos, no meio de um campo de papoilas vermelhas e leves, e resolvi agarrar num. Não para dizer a ladainha guardada cá dentro desde os tempos de menina, aqueles em que me sentava no chão no meio da terra e deixava o vento levar-me os cabelos, sem cuidado em os manter zelados e alinhados. Um desprendimento que agora só consigo em algumas alturas, não sempre, longe de sempre, quase nunca. A saia normalmente ficava escura, manchada de terra, por vezes húmida pela frescura da manhã que me inundava o corpo de um bem estar livre que hoje escasseia. Houve um tempo, nos interregnos do ontem e do hoje, em que considerei efectivamente que a flor não poderia de forma alguma dizer-me o que quer que fosse. Dizia-me apenas uma sorte, que a acontecer viria subjugada a qualquer um outro factor que não a pétala onde terminava o dizer, e nada mais. Hoje penso de outra forma. As flores de facto não nos prevêem coisa alguma, o que de resto nem está em questão. Mas ainda que vazias de capacidades previsíveis, e mesmo que isentas de sentires entranhados nas pétalas, nos caules, nas folhas, no cheiro e na perfeição, conseguem reunir uma amálgama de símbolos que nos entram para dentro da alma através da sensação, e nos fazem recuar, avançar, deambular, encontrar, e descansar. E como símbolos que são, podem ainda não fazer nada, tal como tudo, tal como toda a gente. Depende de nós, o que torna tudo ainda mais especial.

( O símbolo trata uma das grandezas da mente. Nasce-nos em relação e constitui uma capacidade inigualável de traduzir o sentir. O nosso sentir.)

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