segunda-feira, 21 de maio de 2012

Leituras

Lia um do Eça. Não deveria escrever isto desta forma, é o Senhor Eça de Queiroz com todo o respeito que merece, mas é que habituei-me a tratá-lo por tu quando roubei os Maias para mim. Caso não soubessem ficam a sabê-lo agora, apoderei-me de alguns livros na minha existência, que muito embora não me pertençam em construção e em fabrico, entraram-me para dentro do corpo algures no caminho, para não mais me largarem nos dias da vida, e gostaria, confesso, que não me largassem também nos da morte. A eternidade é uma coisa muito estranha que me persegue as ideias e com a qual lido muito mal. Não consigo imaginar o que farei para sempre, coisa que a acontecer devidamente acompanhada por algumas das obras que possuo em mim, poderia assumir-se-me como uma realidade mais simpática, mais entendível, quiçá até menos eterna.
Da boca mirrada saem-lhe umas palavras comidas a meio não sei bem por que grandeza, sei que deve ser grande, só pode ser grande, tal a velocidade e eficácia com que lhe rouba os finais das palavras, o inicio de algumas frases, a articulação devida do que tenta proferir. Inquiro-me para dentro se a pobre perceberá efectivamente o que lê, ou se a malvada da doença lhe leva para além da capacidade vocal a capacidade de proferir para dentro o que encontra nos livros, que todos sabemos que a palavra é um constructo divino sob o qual criamos realidades dentro do corpo, sendo que quando a mesma morre morrem muitas outras coisas, pela ausência de representação. Fiquei aflita. Tenho o hábito inglório de me imaginar com determinadas maleitas que encontro, experimentar o que me trariam e tentar perceber até que ponto me deixariam vulnerável e entregue à raiz do desespero. Um fraco exercício, pela impossibilidade de se experimentar sensações verdadeiras, mas que ainda assim me permite uma sombra de experimentação. Ficar sem as minhas palavras é de facto uma delas. Numa vã tentativa de lhe acalmar o espírito, que não sei se o estava se não, iniciei uma leitura pausada e tranquila de umas linhas que me pareceram belas, e deixei-a a olhar-me com o seu ar pálido e doente, muito embora feliz. Perguntei-lhe no final, ouviste querida? Acenou-me que sim e fechou os olhos.

Sempre gostei que lessem para mim.

1 comentário:

  1. :):) No lar onde o meu pai está, apenas um dos utentes se dedica, compulsivamente, a um estranho exercício intelectual. De lupa em punho, lê folhetos atrás de folhetos, todos em mandarim já que o senhor é chinês, e tradu-los para português. Diz que é para o neto. Ninguém lhe liga nenhuma! nem o meu pai, que apaixonadamente me entranhou o amor que tenho aos livros, pega num livro para ler!
    Este facto agradecem eles ao cérebro cansado, à falta de vista, à fuga do entendimento... Tenho por mim que se alguém se desse ao trabalho de fazer o que fazes - lhes ler uma obra - eles a ouviriam e, mesmo que não entendessem todos os trâmites da trama, algo de belo ficaria e, provavelmente, contribuiria para os sossegar :):)
    Um beijo para ti.

    ResponderEliminar

Deixar um sorriso...

Seguidores