quinta-feira, 3 de maio de 2012

Sezaltina

Sezaltina desapareceu. Devagarinho foi-se consumindo aos poucos, primeiro o corpo, depois o espírito, com um interregno pelo meio que deve ter durado uns quinze dias. Deu algum tempo a quem estava perto para a despedida, avisou, já num estado de loucura iminente, que este mundo não a queria mais cá, e que se iria embora muito em breve. Ainda incrédulos de que tal coisa fosse verdade, os demais foram-na vendo de perto, assistindo a um apagar que parecia programado, talhado a preceito nas linhas estranhas da vida, que usualmente surgem de improviso, quiçá guiadas por uma força maior. Mas aqui nasciam da boca de Sezaltina, tal e qual um livro que conhecemos de antemão, com todas as letras, todos os pontos, todas as vírgulas e todas as histórias que encerra, e que saltam das páginas com um rigor irrepreensível. Vou morrer já daqui a um bocadinho.
Primeiro o corpo emagreceu, deixando antever uns ossos que lhe emergiam da zona do pescoço, e que se evidenciavam por entre as gargantilhas de oiro que usava com medalhões de madrepérola grandes e imponentes. Depois foi a força que lhe desapareceu gradualmente a cada dia, primeiro nas pernas, depois nos braços e nas mãos, para por fim atingir a totalidade do seu ser, e a deixar sucumbida à ajuda alheia, que agia de acordo com as suas indicações, que sempre tinham sido utilizadas no governo dos seus dias. Logo a seguir, e já mais para o final, deixando a descoberto a terrível força do que previa, perdeu a consistência emanada das vestes que usava, deixando ao encargo do acaso o que previamente surgia enquadrado ao tempo, ao espírito e à ocasião, e daí em diante a torrente não teve mais fim, terminando apenas no dia que ocorreu ainda há pouco, em que a encontraram já morta, deitada numa cama de grades que lhe guardava os espasmos involuntários do corpo.
Ninguém queria acreditar na ante-visão sentida por ela, uma senhora pequena e bonita que se guardava do mundo embrulhada em sedas e caxemiras, e que se enfeitava com batom rosa forte, devidamente delimitado pelo lápis que lhe desenhava os lábios, de onde saiam disparates, impropérios, verdades escondidas vindas de um corpo enlouquecido que se esvaia lentamente, completamente sabedor do fim que chegaria em breve.

( Gosto do tema, confesso. Também por isso vou breve ouvi-lo e falá-lo aqui. A quem quiser, faça o favor de ir até Aveiro.)

5 comentários:

  1. Epá! Gostava muito de ir! Também gosto do tema :) E gostei muito da história da Sezaltina :) Obrigada :)

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  2. Antígona, anda. É só apitares que trato de tudo por ti. Entretanto ligo. Ou estou enganada ou já andas de volta das memórias :):)

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  3. O tema não me é muito grato e Aveiro fica looooongeeeeeeeeeee!Mas gostaria de conhecer o conteúdo da sua intervenção...

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  4. Tenho a certeza que vai ser uma belissima comunicação. Que corra tudo bem :)

    Maria

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  5. Carlos, o tema que levo em Poster tem a ver com a importância da proximidade e da partilha na fase final de vida, tudo devidamente enquadrado nas necessidades do ser humano, que tantas vezes se esquecem quando o fim está próximo. Obrigado pelo seu interesse. Maria, obrigada.

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