quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Bengala

Está sentado num banco de jardim carunchoso, e apoia-se numa bengala em caracol. Não carecia dela, está em apoio, mas a dita dá-lhe um sossego forte, um sustento, pertence-lhe, não quer largá-la. Está frio. Ao longe meia dúzia de crianças saltitam sobre o olhar atento das mães. Uma vivacidade em botão, já não sabe o que aquilo é. Apenas a sente se entrar em esforço, se percorrer as veias do passado e o sangue que já lhes escorreu. Aí sim, lembra-se de ter vida. Precisa porém de ânimo para que tal sentir apareça, que a deixar a mente em repouso, apenas consciencializa a sua dura realidade, como se nem nunca tivesse tido outra, e como se desde sempre estivesse confinado a três pernas ao invés de duas. As memórias são uma coisa estranha que lá tem dentro. Não deveríamos dar-lhe caso, tê-las em conta, profere. Embora saiba que é do nosso passado que nos vem a vida, e que é dele que nascemos, a cada dia e a cada instante, sabe também ser ele o responsável por muitas existências presas à saudade, que ao invés de caminharem para a frente desandam para o lado, tal e qual como os caranguejos. Deveria morrer sozinha a saudade, num abandono frio e amargurado, que é exactamente o que merece. Talvez por isso já se habituou a não ligar às memórias. Tem-as lá dentro, chafurda nelas de vez em quando, mas logo depois deixa que descansem, num repouso longo e prudente, que o deixa caminhar devagar num jardim com flores. Não o preocupa o que já não tem. Não o preocupa sequer o que vai ou não ter. Preocupa-o apenas a sua existência vagarosa, o seu andar lento, a sua vida compassada. Chega-lhe, e por isso quer cuidar bem dela. Já se acomodou, já percorreu.
Porém, e numa inconsonância com toda a quietude onde chegou, encontro-lhe ainda um sonho. Sonha que o entendam. Sabe ser sonho vão, que não há nada mais difícil do que entender realidades alheias. Mas não há nada que mais procuremos, sempre, a cada passo, do que o acolhimento constante.
- A bengala, sabe. É para me amparar o corpo que já não consegue sozinho.
- O passeio sabe, é para me animar a alma que já não consegue sozinha.
E ficaram os dois à espera.

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