quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Última parte

Senta-se na mesa, engole um naco de pão duro e um pedaço de queijo seco e esburacado, retirado do frasco do azeite, e espera que aquela aflição a desampare, que nem lhe apetece aturar tal coisa. Nem bem sabe a que santo pediu o sossego, sabe sim, e isso muito bem, que o dito se lhe deu a bênção em defeito, que ao invés de lhe levar a agonia, aumentou-lha cada vez mais, sendo que nada lhe valia para o sossegar do costado, cada vez mais dorido e amargurado. Precisava de saber do que se tratava. Saiu, e encaminhou-se em esforço importante para casa de sua mãe, que mal a viu naquele estado, de imediato percebeu que iria, naquele exacto dia, ser avó, permanecendo apenas a dúvida, relativa ao número de netos. A parteira ainda era uso na aldeia, tendo sido de imediato chamada, a fim de dar contimento aquele acontecimento há muito esperado. A pobre mulher, velha e cansada, arrasta-se então para o seu propósito, que não duvida que disso se trate, um destino, que desde sempre traz gente ao mundo, numa sapiência herdada de sua avó materna, também ela capaz de fazer nascer pessoas. E foram dezenas diz com orgulho, incluindo, e só para que percebam a dimensão de quem se trata, o nascimento do senhor excelentíssimo presidente, uma alma pouco dada a celeridades, que já na vinda para este mundo, se mostrou em demoras sérias. Foi preciso, segundo lhe confidenciou sua sábia avó, um retorcimento ainda dentro de sua mãe, a fim de possibilitar a passagem daquele ser já teimoso, que no final da primeira guerra, por si travada e por si perdida, teve de sair, guinchando que nem um moiro desaforado, para o orbe que o acolhia.
Aquando da chegada da velha, já o trabalho ia em adianto. Já lhe cabiam uns bons dedos, atestando uma passagem já preparada para a vinda do que lá estivesse dentro, apto para sair. A água foi aquecida, as toalhas trazidas, os utensílios preparados, tudo, enquanto os gritos esganiçados da pobre da moça, se faziam ouvir, bem ao longe.
No meio da giga joga da vida, nascem-lhe dois seres de dentro da alma, um macho e o outro fêmea, ambos detentores de uns pulmões apurados, capazes de berrar muito mais ainda do que sua mãe houvera feito, a fim de os botar neste mundo. Ela, ao vê-los, enrugados e ensanguentados, logo após lhe terem esfrangalhado as entranhas, teve vontade de arremessa-los. Sabia porém nem ser esse o sentimento esperado, pelo que fechou os olhos com força, numa feroz tentativa de sentir uma qualquer outra coisa, fosse ela qual fosse, que nada do que viesse, poderia ser pior do que aquilo. Fez bem. Nos instantes seguintes, e perante tamanho milagre, ganhou-lhes um amor indescritível, que lhe vinha de dentro do peito, quase parecendo, que mais nada lhe cabia dentro. Daí, em diante, nunca mais isso lhe passou. Por esse sentimento, deixou de ter sonhos e ali ficou.

2 comentários:

  1. Questão única:
    O pobre marido nunca desconfiou?

    Muitas vezes nem fechando os olhos as mães tomam amor aos filhos, mas esta é uma História de Natal :) Uma excelente História que podia ter sido escrita por atacado :) Muito bom!

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