sábado, 3 de dezembro de 2011

Luisita

Chamam-lhe Luisita desde pequena. Não percebe tal chamamento acabado em ita, nunca perdeu sequer muito tempo a pensar sobre o assunto, sendo que simplesmente responde, sabe que é com ela. Anda por vezes embrulhada num pêlo cinzento rato, uma relíquia guardada desde há muito, que compõe com um alfinete brilhante, muito trabalhado, oferta do marido já falecido. Esses são dois dos acessórios que fazem parte integrante de uma panóplia considerável de adornos, que utiliza para se enfeitar. Nunca, por nunca ser, sai de casa sem o número exacto que lhe faz falta para aquele dia, variável, muito variável. E vai dos dias em que apenas carece de um ou outro atavio, suficiente para lhe compor a toilette, e para que se sinta arrumada, a outros em que lhe faz falta um cuidado muito mais minucioso, e que poderá passar por um colar ao pescoço, um chapéu na cabeça, anéis em vários dedos, luvas nas mãos, e por aí fora. Os dias em que esta necessidade se assanha, saltam-lhe de dentro do peito, em forma de angústia e desarrumação interna, carecida de aliviar um bocadinho. Porém, e por muito que se arrume por fora, tem muitas das vezes a sensação de descontinuidade interna, um desconsolo aflitivo, um vai e vem desordenado, que lhe sacode o corpo trôpego e envelhecido, mas muito acordado por dentro. Costuma, nesses dias, olhar em redor e arrumar tudo o que consegue alcançar com a vista. Desde os pratinhos de vidro no armário expositor da sala, aos arranjos de flores na mesa redondinha do canto da entrada, às molduras com retratos da família, filhos, netos, bisnetos, tudo na devida ordem de nascimento, às almofadas do sofá, feitas a retalho de tecido pelas mãos de sua mãe, que organiza, seguidinhas, por cores e por tamanhos. Nos entretanto pára. Olha a envolta arrumada, e sente-se um nadinha mais confortável, que pouco lhe basta, continua em chaga. É por norma nesses dias, que antes de sair de casa, pega no pêlo e o enrola com jeito ao pescoço, devidamente composto pelo alfinete brilhante, que o segura exactamente no lugar em onde ela o quer ter. Naturalmente, dai advém uma sensação de ordem tranquilizadora. Tudo, mas tudo na envolta, transmite harmonia, até ela própria. Quanto mais não seja pela lógica, já não faz sentido o desconforto.

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