terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Companhias

Ela sabe-se tensa quando invade os chocolates. Tem preferência pelos simples, de leite, mas se tiverem amêndoas, secas e estaladiças, também lhe sabem bem. Quando neste estado se encontra, ainda o dia mal amanheceu, e já o apetite voraz lhe toma conta do corpo. Entretém-se com qualquer outra coisa, ainda é cedo, mas assim que a sua mente permite, corre para o frigorífico onde os guarda criteriosamente, por sabores, marcas e cores, e inicia o pecado. Nunca ousa comer muito de uma vez só. Sabe que a isso nunca se perdoaria, e não existe maior punidor do que o próprio corpo para si mesmo, um desassossego constante, apunhalado por nada, banido por coisa alguma. Um verdadeiro tormento. Devido a isso, contêm-se. Um quadradinho de cada vez, pequeno, doce, aquecedor de uns sentidos frios e azedados, que carecem com urgência de apaziguamento. Existem dias em que são suficientes para que se distraia das dores maiores, nem bem sabe como o faz. Tem presente que estas pequenas distracções, que lhe adocicam a língua e lhe adormecem a alma, mais não fazem do que isso mesmo, distraí-la, de um mundo um tanto ou quanto imenso que a circunda, onde por vezes se perde e sente medo. Poderá o mundo não ser tão imenso? Poderá ao invés acolhê-la, arranjar-lhe um sítio confortável, um local onde possa estar? O medo não é mais que um desconforto, um não saber ser, um não saber encarar, um não conseguir aceitar. Hoje, sente-se acima de tudo distante. A distância é uma grandeza pouco absoluta, parecida com coisa nenhuma. Não há nada que se assemelhe a ela, nem que se assuma de uma forma tão pura, com relatividade. Varia de gente para gente, e de dentro para fora. Logo, e neste seguimento de pensamento, poderemos estar muito próximos de alguém que se encontra longe, e muito longe de alguém que temos mesmo ali ao lado. E por incrível que pareça, a distância de espaço é qualquer coisa como ninharia, quando a proximidade interna é real. Já a proximidade efectiva, com toque e presença, pode chegar a ser incómoda, de tão distante que pode ser. Um chegar que não se sente, um beijo que não percorre, um coração que não acelera, apenas bate. Vozes que não entram. Enquanto deambula internamente sobre isto, come chocolates. O de hoje tem recheio de morango, macio e cremoso, uma novidade. Em cada quadrado mastigado, sente um pingo que lhe escorre da boca, que de imediato apara com os dedos, não vá perder-se. Seria esbanjamento. Entretanto alguém entrou. Passou pouco tempo, e come outro quadrado. Doce, delicado, aveludado. Uma companhia perfeita, um desperdício ficar ali.

3 comentários:

Deixar um sorriso...

Seguidores