segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Jovenaldo II

Ora nada disso se passou, que aqui os santos nem se encontram com tamanha arte, e de santos têm pouco mais do que o nome, pelo que o que aconteceu na realidade, foi a galopada desesperada do Dr. Cunha e Silva pela colina, de bofes de fora, prestes a cair em desfalecimento mal atingiu a casa, com a terrível desgraça lá dentro.
E foi exactamente ali naquela hora que sentiu falta das graças dividas, que aquando da subida, o seu corpo ainda que fraco, acompanhou-lhe as necessidades, tendo sido prestável o suficiente para o levar com valimento ao local de sua função. Foi quando os seus olhos se puseram em Jovenaldo, encolhido na cama e retorcido com dores, sem quase mexer, que em suas entranhas se reuniram com todas as forças que tinham, numa prece que temia vã, perante o cenário de calamidade.
Mal viu o médico, Jovenaldo remexeu-se na cama conforme pode, e tentou esconder-se o mais possível, que da última vez que aquele velho lhe assolara a porta fora por mor de uma amigdalite, curada a penicilina, daquela que se enfia no corpo devagarinho pela bochecha do rabo, com a ajuda de um tubo contendo uma agulha na ponta, capaz de o fazer gritar de dores colossais e de coxear uns bons dois dias, da perna apanhada. Vá lá, curou-se a garganta e pode falar outra vez, que se tal coisa nem tivesse ocorrido, já o tinha planeado, teria feito uma espera aquele médico maluco, que ao invés de curar as crianças enfermas lhes coloca ainda mais dor, e onde ela nem existia vejam só, tamanho descalabro. Mas adiante. Ora se uma mísera dor de garganta é coisa para ter uma cura de tal calibre, hoje, e logo após o aterro no chão seguido da dor lancinante, que o acompanhou desde o osso rábico até às costas que ficam ao pé do pescoço, espera um remédio muito mais aterrador, vindo de dentro daquele saco cruel e maligno, capaz, quiçá, de o levar à beira da loucura. Se calhar o melhor, seria esvair-se nas dores da queda de uma vez por todas, e deixar as dores das curas para quem delas quisesse padecer. Haveria de arranjar-se de alguma maneira.
Ninguém lhe acudiu às ideias, que o que aquela gente queria era analisa-lo a pente fino, vê-lo de fio a pavio, começando nos pés, passando nas pernas e nas costas, com especial incidência no rabo, para depois se concentrarem na cabeça, que nem sequer bateu, mas que poderia ter batido, e estar adormecida perante a dor óssea dos membros inferiores. Num desleixo que ali ocorresse, sob as mãos do Dr., poderia até deixar-se escapar algum traumatismo, infortúnio com poder suficiente para lhe deixar lacunas sérias, e incorre-lo no risco de algum fado menos bom, consequência essa, temida a preceito pelos seus progenitores.
Após a cuidada análise, o médico coça a cabeça parca em cabelos, rufia o bigode farfalhudo e esfrega a ponta do nariz, sinal de que se encontra em análise aprofundada dos dados que acaba de recolher, e que vai dar inicio ao processo de diagnóstico.
- Nem sei que vos diga, caros senhores. O menino precisa de exames médicos mais detalhados. E isso, só em Lisboa. Perante o olhar incrédulo dos pais, volta a falar e adianta. - O melhor é irem, que não sabemos o que por aqui está. Alguma lesão não detectada, e poderá o moço comprometer o seu crescimento.
Ninguém ali estava preparado para tal veredicto. O pai, homem de trabalho do campo, de taverna, e de vinho tinto, nem se via agora a rumar para a capital, ainda longe das terras do Ribatejo. Mas seria aquilo mesmo preciso, ou tratar-se-ia de um desaire daquele pobre médico, velho e cansado, que de tanto diagnosticar bicos de papagaio, diarreias ou comichões, já se encontra turvado para os outros males do mundo, e encastoa uma simples queda, no rol das desgraças terrenas?
A mãe, por sua vez, e ainda que se constituísse como uma espécie de trato afastado, nada afectuosa, e muito pouco dada a preocupações desmesuradas, ficou-se com as ideias obstipadas pelo discurso do médico. A mulher ainda tentou pensar a rigor, mas os gritos desesperados do infante, juntamente com o ar pálido do médico, que tinha esvaído a cor inicial que trazia, não lhe permitiram um raciocínio digno de tomar qualquer tipo de decisão no que respeita à situação, pelo que o que optou por fazer, foi questionar o médico sobre o que deveria ser feito naquele exacto momento, enquanto se pensava a derradeira decisão. Não havia muito a fazer senão dar-lhe um xarope doce para as dores, e leva-lo dali para fora, quanto mais depressa melhor.
A reunião de família nem por isso foi considerável, que eles eram poucos, e dos poucos que haviam, alguns, nem se pesavam. Nem parecia existirem grandes alternativas, que há medida que o tempo passava, os esgares do petiz aumentavam de intensidade, pelo que algo teria de ser feito rapidamente.
- Vou eu, se não fores tu também. Profere a mãe. O pobre está mal, precisa curar-se. Um dia mais tarde, ainda poderemos precisar que vele por nós.
E assim foi. Na cura e no resto.

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