quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Momentos

Hoje vi-a montada na sua bicicleta de cesto e roda fina. Pedalava em direcção ao Lidl, enquanto os cabelos encaracolados denunciavam uma ventania insistente, desinquieta, que a deixavam um tanto ou quanto atordoada. Notava-se pelo sacudir da cabeça, pelo equilíbrio fraco, pelos ziguezagues na estrada. Outro dia, há pouco tempo, encontrei-a na subida da escada, munida de uma esfregona enxovalhada, quase tanto quanto ela. Descia muito devagar, enquanto o pano amarelo minguado se arrastava de um lado para o outro, sem vida e sem reacção. Há muito que me apercebo que as pessoas incutem no que fazem o sangue que lhes vai na alma. É ilusão vossa o pensarem que é todo igual, ou ainda que, uma vez forte, forte para sempre. Existem sangues possantes e sangues assim assim, e dentro de cada um deles existem dias. Uns onde pulsa muito, e outros em que se deixa abrandar, correr mais devagarinho, em caso de sobrecarga. Naquele dia ela estava pesada. Lá de casa trazia um cheiro pestilento a humilhação, que lhe escorria por entre os dedos das mãos e caia directamente no balde de espuma cinzento, que a cada gota fervilhava um bocadinho, como que num queixume inútil, pela invasão do rancor. Queria ela poder-se ver livre de tal carga. Sabe perfeitamente, que a nenhum lado de bom a transporta, este maldito, que ao invés de lhe dar sossego, tira-lhe o pouco que lhe resta, e que ainda emerge, de quando em vez, em algum dia ao acaso. Passo e cumprimento-a, deixando-lhe espaço suficiente para que se desarme, como em tanta ocasião. Não desarmou. Muniu-se do seu trabalho enjeitado e seguiu caminho, como se naquela tarefa estivesse um remédio capaz e suficiente, para lhe destilar as moléstias. No dia seguinte, quando desci, ia jurar que da porta entreaberta da dispensa, jorravam cheiros nauseabundos e putrefactos, que emanavam de tudo onde tinha posto as mãos. Ainda julguei algum equivoco, quiçá aguçado pela hora matutina do dia, mas à medida que me aproximava da dita porta, fui-o percebendo com maior intensidade, chegando até a senti-lo de raspão, como um vento pestilento, de cor esverdeada, e muito barulhento. Estou contente de a ter visto hoje. Ainda que estonteada pelo vento, sorria ao sol do Inverno.

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