domingo, 25 de dezembro de 2011

Natal 3

Sai de casa e está muito frio. Abafa-se numa agasalho quente e percorre a aldeia deserta. Por entre as pedras calcadas pelo tempo, encontra experiências de vida que já se foram, resquícios de momentos passados, batidos pelo sol e pela chuva, exactamente com a mesma intensidade com que os dias a poliram por dentro, sendo que por isso hoje se encontra lisa, delicada, quase subtil. Houve tempos em que tentou uma existência mais dura, um ser mais inteiro, uma imposição de presença forte e marcada, um não se deixar ir. Era assim que era gente, mas achou-se em engano. Hoje, e no seguimento do crescimento, prefere esta existência singela. Já não lhe importa muito o que a julgam, se a acham forte ou fraca, dura ou submissa. Tempos passaram em que a julgavam forte quando ela se sentia fraca, ou até dura quando ela curvaria num bafejo, sem ninguém o perceber. Por isso mesmo hoje já não faz caso disso. Apraz-lhe uma existência mais branda, marcada pelo silêncio ou pela isenção, quando se sente incompreendida. Lá dentro dela mesma, ela entende-se sempre. Prossegue. Na porta de Dona Alexandrina, a velha que colecciona baús de antiguidades preciosas, que guarda como se do mundo inteiro se tratasse, encontra um cão aninhado na porta, encolhido ao frio. A velha resguardou-se do mundo de tal forma que já não ousa sequer deixar entrar os bichos, que alimenta ao longe, da soleira da porta, temendo quiçá que o afecto a tome outra vez, e que de novo perca o aconchego do sentimento. Assim, já nada tem a perder. Percebe-a, nem sequer a condena, embora não partilhe. Continua o caminho e passa pela fonte. Por ela escorre uma água gelada, que nasce de dentro da terra puríssima, para logo depois se adulterar por uma aldeia inteira que ao invés de a proteger e de lhe reconhecer a importância, a desdenha, numa injustiça tremenda, perante a necessidade manifestada. Fossem as pessoas justas, reconhecessem elas o que carecem ao longo do tempo, e tratariam-na em respeito, em cuidado e em protecção, que vem ao mundo para nos servir e para nos permitir a existência dependente, da qual somos portadores sem pensar nisso. Vai embora. Na eira que se segue, alta, redonda, onde em tempos se secava o milho, ousa sentar-se. Sente uns raios de sol fracos que lhe acertam no corpo frio, e pensa na relatividade das coisas. Está em paz. Sente-se tranquila, rodeada de um mundo que carece com urgência de transmitir harmonia, enquanto sangra desgraça por todos os poros. Fome, miséria, abandono, solidão. Infelicidades que se remendam com remendos muito frágeis mas que se julgam deveras poderosos, e que nos deixam num estado insano de sossego vão, uma mixórdia de sentimentos fictícios. Enquanto ela recebe o sol e a paz, neste mundo que se enfeitou de luzes natalícias, presépios e velas coloridas, encontramos submersa a podridão, aguçada por um espírito mesquinho que conquistamos com o tempo, onde o que se vê pode valer muito, e o que se sente e se vive, chega a valer quase nada. Só uma sociedade profundamente doente pode viver assim. Só um homem alienado, consegue ser completamente feliz aqui.
Põe as mãos nos bolsos e regressa. É Natal. E que a esperança dele exista, e que nos escorra das mãos. Assim como a coragem, a hombridade, o respeito e o poder da mudança. O balanço não é bom. Cabe às mãos do mundo fazer melhor, ao invés de aguardar colapsos inevitáveis, vindos de guerras evitáveis.

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