segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Saudades

Era uma figura muito pouco querida. Nem que a aparência fosse demasiado rude, pelo contrário, que o ar era quase meigo, os olhos eram claros, os cabelos faziam umas ondas certas polidas a Olex, o que as deixava brilhantes, ainda mais bonitas. Cheirava bem, sendo que uma das suas grandes paixões eram sabonetes. Feno, Palmolive, verdes, cor de rosa, amarelos, todos guardados religiosamente dentro de uma gaveta de um armário branco, destinada exclusivamente aquele efeito. Retirava um quando necessário, e tinha sempre reserva. Tal como tinha reserva de paletes de leite, guardadas ao monte por trás da porta da cozinha. Bebia um litro certinho todas as manhãs, embebido em café com leite e muito açúcar. Gostava também de pêras, maçãs e bananas, que devorava no final de cada refeição, com gosto e sofreguidão. Olhando à primeira até parecia dócil, tornando-se porém mais amargo à medida que se conhecia. Sempre a intrigou o porquê das gentes se mostrarem umas com os de dentro, e outras com os de fora. Uma com os conviventes, outra com o desconhecido, quase como se o que interessasse fossem os olhos de um mundo que nem é nosso, e os olhos de quem nos é próximo, fossem uns olhos indignos de respeito, de carinho, de prontidão. Foi conhecendo muitos ao longo do tempo. Pessoas que parecem viver para quem delas pouco se importa, e que deixam dependuradas em despeito, aqueles que os amam. Trataria isto algum tipo de incapacidade? Estaria ela presente a algum fenómeno de iminente ignorância congénita, que ataca forte algumas mentes pequenas, que não abrangem para além do próprio corpo? Percebeu entretanto que não é tão simples. Ajudou-a claro, que a incompreensão é algo que lhe atormenta a alma, e ainda hoje ambiciona continuar a entender o que pode parecer nem ter explicação. Trata isto gente que ficou pelo caminho, em algum recanto obscuro vedado à emoção, sendo que apenas conhecem verdadeiramente o seu próprio eu, com um ligeiro cheiro, muito ténue e mortiço, do sentir do outro, que só existe para dele cuidar. Ele, ao invés de retribuir, centra-se dentro de si mesmo, sorri para quem algo lhe possa dar, ou opinião a respeito possa emitir, que se for favorável, tanto melhor. Neste seguimento valorizam verdadeiramente grandes senhores, que por norma, nada lhe têm a apontar. No fundo, sabem-se dar. Aquele, o que lhe esteve mais próximo, acordou tarde. Careceu de sentir uma falta no corpo, do que sempre teve, e estaria na iminência de o deixar. Num ápice, virou a acção. Do nunca passou ao sempre, do mau passou ao bom, do rijo, passou ao doce. Não fosse a circunstância, e teria havido ali felicidade. Assim, houve um volte face de alguém que por medo mudou, e o sorriso de outro alguém que nunca assim se viu, e que ainda que em doença, conseguiu um sossego que a aconchegou. Ela partiu primeiro. Ele, quiçá por remorso, a mais terrível das cargas que podemos acartar, rumou dias a fio a iluminá-la de luzes, a enfeitá-la de flores nunca antes dadas, a cuidá-la como nunca houvera feito.
Pelo caminho morreu de amor. Ou da falta que ela lhe fazia. Ou de uma loucura vinda de dentro, de um local ermo e entorpecido.

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