domingo, 18 de dezembro de 2011

Jovenaldo

Sabe ter nascido do desejo. Se não propriamente a ele, pelo menos um desejo inerente ao seu enceto, que daí em diante andou em trambolhos desesperados pelos cantos do mundo, como se a lado algum concernisse. Não apareceu na época exacta, sabe disso, que a tal ter ocorrido, por certo lhe teria sido dado um lugar, por reles que fosse, coisa essa que nunca ocorreu, sendo que a única explicação que lhe parece plausível de entendimento, é a incongruência da hora, acontecimento no qual tem poder nenhum, dado que uma vez cá, cá estamos, acontece a todos, e de nada nos vale o esbracejo desesperado na vontade da fuga. Ainda chegou a pensar ser uma questão de lugar, teoria essa refutada após buscas incessantes de novos sítios, sempre cheios, sempre ácidos, sempre amargos.
Começou cedo a desavença com a vida. Sua mãe, trabalhadora no campo desde o nascer ao pôr do sol, deixava-o entregue às vizinhas, que mal delas cuidavam quanto mais daquele pequeno ser, muito feio e desajeitado, que mais não fazia do que diabruras. Chegou a ser levado para a horta e deixado na sombra de uma árvore, mas a agrura da lavoura não se comovia com os seus choros desesperados, o trabalho era para ser feito, quando muito ao toque do canto emitido pelas bocas que trabalhavam, mas não pelo choro de um bebé azedado, tido pelo demónio, que bramia assim a céu aberto. Cresceu aos estorvos, foi o que foi, de vizinha em vizinha, de tia em tia, debaixo de sol e de chuva, por entre árvores de azeitona, ramos de sobreiros, flores de azinheiras, cães, gatos, cabras e bodes, vacas e porcos.
Deveria ter uns seis, mais coisa menos coisa, quando uma malvada de uma queda o deixou inerte no chão. Estava a brincar com Hermengarda, uma prima nascida em hora certa, abençoada por alguma divindade que a escolheu a dedo e a colocou no seio de uma família abastada por parte do pai, vindo de longe, que pegou em sua tia, irmã de sua mãe, e a desposou de imediato.
Ficou tudo numa grande aflição. Nem que a preocupação de seu estado fosse verdadeira, que o que mais assanhava o desespero de seus pais, era, lembra-se bem, a iminência de alguma consequência devasta, capaz até de lhe comprometer o movimento, e para que serviria tal homem se não para angustiar? Perante tamanha ameaça, pior até do que própria morte, que ao menos essa era certeira, definitiva e isenta de aborrecimentos permanentes, era necessária a busca de ajuda médica, sendo que se chamou a casa o Médico da aldeia, o Dr Cunha e Silva, um velho corcunda e coxo que se passeava entre as casas, o consultório e a taverna, e que levava, num peso considerável para o seu ser frouxo e reles, uma mala preta, onde depositava todos e mais algum utensílio que pudesse vir a ser necessário para curar quaisquer tipo de males, fossem eles graves, muito graves, ou ligeiros. O médico veio depressa. A queixa foi dura, a criança tinha caído, havia dores, não ousava mexer-se. Acelerou o passo até onde a ciática lho permitia, e era vê-lo galgar a colina, numa figura caricata que faria rir quem o visse e nem sonhasse a desgraça que encontraria, que aos outros, aos anjos, santos e deuses, que de lá de cima velavam o menino, a única coisa a povoar-lhes o espírito, a única atenção para a qual conseguiam dar-se, era acelerar dentro de seus possíveis os passos do pobre do velho, que de tanto correr já se esvaia em gotas de suor amarelado, que lhe pingava da testa em gotas fortes e fedorentas, as quais ele limpava ameaçadoramente com um lenço de bolso bordado à mão com as suas inicias, que nem sequer chegava para tal gotear. E pensarão vocês por certo que se bem o cogitaram melhor o fizeram, que o que não deverá encontrar-se em falta na terra dos santos serão poderes milagrosos, sendo que o que terão realizado, clandestinamente, sem ninguém notar, terá sido transportar o pobre do velho ladeira acima, deixando-o plantado bem na entrada da porta, isto para não ser já lá dentro, não fosse o milagre ser visto. (Continua)

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