domingo, 5 de junho de 2011

Cartas de amor

A casa era de telha vã, com umas vigas grossas de madeira que se podiam contar à noitinha, quando o sono teimava em vir. A cama, era de uma madeira carunchosa, crivadinha de pequenos bichinhos que a roíam aos poucos. Haviam noites, em que a comezaina era tal, que eu esperava, em ânsia, que a pobre desse de si, e nos deixasse às duas estateladas no chão, por cima de um mar de bichos esfomeados, pequenos e com muitas patinhas. Piorava consideravelmente quando ela escrevia ao meu tio, umas cartas de amor longas e saudosas, acompanhadas de uns fungares sonoros, emitidos de dentro de um coração pequenino, que a distância encolhia, a cada dia, mais um pedaço. Ou então seria igual, mas era eu que sentia muito, dada as longas horas acordada, sob a luz do candeeiro de cabeceira, que nunca mais apagava. Os envelopes onde se metiam as palavras de amor, tinham umas riscas azuis e vermelhas, e diziam avião. Seguiam invariavelmente pelo correio, no dia seguinte, imediatamente do café abaixo, onde a motoreta passava, todos os dias sem excepção, a deixar e a levar o que fosse preciso. Nos dias seguintes, havia descanso, que ela sabia a demora, da ida e da volta. Volvidos uma dúzia, mais coisa menos coisa, a inquietação invadia-lhe o espírito e o corpo, e o sossego era levado para longe, para um sítio distante e de acesso vedado, conseguido apenas naquele dia, em que o carteiro trazia no saco uma carta, já enrugada pela distância, carregada de ditos doces, saudades embrulhadas e sentimentos escritos. Nesse dia, a minha tia chorava. E estava feliz, dizia-me, a mim, que nem percebia, e que só via lágrimas a escorrer-lhe dos olhos. Aquilo, eram cartas de amor.

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