quarta-feira, 29 de junho de 2011

Repulsas

Entra-me esbaforida, pingando suor. O lenço que guarda em mãos torna-se fraco para a tarefa que lhe impingem, que a pobre, está-se a esvair devagarinho, em gotas grossas e brilhantes, que lhe tornam a pele luzidia e muito peganhenta. O seu porte, altivo e autoritário, condiz com tudo o que lhe sai da boca, que o que mais gosta, é de proferir barbaridades sábias, daquelas que constituem verdades absolutas, indiscutíveis, próprias apenas de quem sabe. Já duvidei que houvesse gente assim, detentora sapiente de tudo e de nada, conhecedora a fundo dos meandros diversos, que podem ir do banal ao científico, do trivial ao extraordinário, do lógico ao infundado. Entretanto, percebi que afinal há, e que existem pessoas donas de certezas convictas, vindas das profundezas de corpos abençoados por algum outro Deus, diferente dos Deuses que abençoam o resto do mundo. São os chamados afortunados, dotados da razão, muito superiores a esta coisa fútil e enfraquecida, que é o comum dos mortais, que aprende sempre, e que nunca conhece a totalidade. Perante estes seres inteiros que me vão cruzando o caminho, tomo duas atitudes. A primeira, é uma tentativa de comunicação, de dar mas também de receber, para que a igualdade se torne possível. Raramente é. Nesses casos, por norma, retiro. Não física, mas interiormente. Deixo falar, sem questionar, não concordo nem discordo, a não ser que me afronte directamente, ou seja, fico indiferente. Atitude, quiçá, de desprezo meu, por quem tanta verdade contém.

Deveria por certo ter-me resignado, e sorvido a sapiência que lhe escorria da pele, por água e palavras. Mas fiquei repugnada, por ambas as duas. Já foi embora, dona de tudo. Qualquer dia, sem querer, o corpo esvai-se-lhe de vez, tal a grandeza emanada. Deixará espalhado um rasto de saberes, que a poder ser, serão aproveitados por almas carentes que lhe vejam préstimo.

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