sexta-feira, 24 de junho de 2011

Vestido aos folhos cor de rosa

Passo em corrida para ir ao banco. Na entrada, um funcionário camarário limpa a rua com um aparelho de pressão, que salpica os carros com umas bolas de água cinzentas, muito densas, que deixam os vidros sujos e baços, completamente inertes para a função a que se destinam. Uma mulher ralha enraivecida, que a incompetência é algo que lhe soa muito mal, ainda para mais, num mísero trabalho como aquele. Mesmo ao lado, uma montra de uma loja apresenta vestidos coloridos, de gosto seriamente duvidoso, ornamentados com folhos, plissados, e casaquinhas curtas e douradas. A tiracolo, umas pochetes brilhantes compõem o cenário, que de tanta cor se torna extenuante, até para quem olha só de revés. Fiquei com a vista irrequieta. Na frente da montra, um casal enamorado aprecia aquelas belezas, com especial atenção num vestido rosa choque, com uns apliques volumosos no peito, o qual ele diz favorecer apenas mulheres de decote avantajado. Ela, sorri timidamente, e acabam por entrar, deduzo que para experimentarem se o vestido lhe assenta, ou se, ao invés, o seu porte não chega para que lhe caia bem. Segui. As noticias do dia, ainda que já previstas, não me animam. Irrito-me comigo mesma, e com esta minha vertente premonitória. Aquela lá atrás, gordinha e sem mamas, que experimentou um vestido rosa, e provavelmente o levou para casa, estará por certo, a esta hora, muito mais feliz do que eu. Chego até a imaginá-la, de fronte ao espelho, enquanto se pavoneia sobre os olhos deliciados do marido, muito baixo e rechonchudo. Não sei, mas imagino que o casório onde o irá levar terá lugar em breve. Amanhã, talvez. O remate será dado por uma sandália branca, com um salto muito fino, de verniz.

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