terça-feira, 27 de julho de 2010

Maria, rara em mim

Maria era uma mulher dura. Dura por fora e dura por dentro, coisa até rara, quanto mais assim emparelhada. Desde cedo ficou sozinha com dois filhos homens, que o marido, esse, assustou-se com tamanha rudeza, que de resto, nem lhe daria o aconchego pretendido nas noites de inverno, palavras dela, não minhas. Dedicou-se por vocação e precisão a tomar conta de velhos, que levava para a sua própria casa, onde os zelava com cuidado e dedicação, com a preciosa ajuda do filho mais novo, que desde cedo mostrou gosto pelo ofício. Quem já é duro de nascença, perante vida também ela dura, fortalece ainda mais, e estamos hoje perante uma mulher quase de ferro, nota-se a léguas. Têm-lhe um respeito extremo, quase que arrisco dizer um medo de morte, que perante um olhar de reprovação, todos ou quase os que a circundam, Homem ou Mulher, recuam no dito que possa ter ofendido Senhora Dona Maria, matriarca da família e arredores, que manda e desmanda como bem lhe aprouver. De fora levantam-se vozes críticas aos métodos, à postura rígida, ao império que construiu pela sua força, porque se acha abusar da boa vontade alheia, porque se diz explorar quem tem o azar de com ela se cruzar, porque se diz crescer à custa dos outros. Bem certo será, que a conheço de perto. No íntimo também lhe reprovo, nem são de gente, os métodos coercivos, que de resto, nem suportaria, sabendo ainda que muitos dos que os suportam, o fazem muitas vezes por necessidade extrema. Daquela mesmo extrema. Os outros resistentes são os da conveniência, se é que me explico. Ainda assim, e quando a encontro, como ainda ontem, gosto de a ouvir falar. É das raras que internamente condeno, no parco direito que me assiste à condenação alheia, para no fundo, ainda que só em parte, conseguir admirar. Pela força, especialmente por ela.

1 comentário:

  1. Maria é o meu segundo nome. Se fosse o primeiro seria mais complicado...lol

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