quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Certezas

Existiam dias em que tinha umas certezas estúpidas. Não deveríamos ter certezas de nada no que confere a sentimentos alheios, projecções, ambições. Para termos a real consciência do erro em que incorremos, basta que olhemos para nós, e que percebamos as mudanças que efectuamos na nossa vida ao sabor das nossas vontades e das nossas indecisões. Mas ao invés disso, ao invés de respeitarmos a natureza dos corpos que povoam a terra, e que na maioria das vezes até aos próprios se atraiçoam, em nome do capricho e em detrimento da palavra, cremos. Olhamos para os dias com uns olhos turvos pelo que queremos ver, e que parece tão claro como a luz que nos emana da alma. A nossa alma por vezes engana. Ilumina-se de réstias de nada, floresce imersa em arbítrios, cresce ramificada em sonhos. Uma fraca incumbência à qual sujeitamos o corpo. E depois de repente, quando a luz se apaga e tudo ameaça ruir, corrói-se perdida entre ela, jura aprender a sério o que há muito já sabe e que sempre acabou por esquecer, não por esquecimento sentido, mas por esquecimento querido. Porque existem aprendizagens daquelas que doem. Umas que parece que não queremos saber nunca, mas que o trânsito dos dias insiste em relembrar-nos, malvados sejam. Como os pingos de água que caem no Inverno, mesmo com sol. Talvez por isto tudo não deixava que essas certezas lhe roubassem o corpo. Guardava-as de esguelha enquanto não se conseguia libertar delas, meio de dentro e meio de fora, prestes a sacudi-las antes que o seu sangue as absorvesse e lhe começassem a correr pelas veias, lhe percorressem o corpo e lhe saíssem pelos poros, pela boca, pelo ventre. Ou pior, se alojassem para sempre no músculo que bombeia a emoção. E então era vê-la a arrastar-se pela rua, carregada de certezas vãs que lhe pesavam no costado fraco e cansado, e às quais ia largando, devagarinho, nas fortes pedras da calçada.

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