terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Medo

Já esteve quase a entregar-se à razão. A deixar-se estar encarquilhada e rija nos seus braços fortes, que a sustêm num encosto certo, sempre igual, infalível. Aconteceu já por algumas vezes na sua existência as emoções encontrarem-se por demais dúbias, capazes de a enlevar aos píncaros do mundo num minuto, para que no minuto seguinte a larguem no chão, de corpo inteiro, inerte, quase morto. Nessas alturas em que se levanta a custo, quando nela descobre forças que nem sabia existirem, racionaliza o mundo que a rodeia, enfia-o dentro de uma fórmula matemática organizada, entre quadrados, arestas, linhas rectas, tudo na maior precisão. Sente-se segura nesse reino, onde manda e desmanda ao sabor da sua lucidez, uma rocha forte, uma robustez, consistente o suficiente para que não caia com facilidade nos terrenos que pisa todos os dias. Sacode as indecisões, as incertezas, as fragilidades, as possibilidades que não sabe se vãs se concretas, e deixa-se seguir assim, numa linha estanque, mas muito monótona. Não somos assim, acaba por concluir, quando o cansaço a assalta com força e a sua alma pede aconchego e emoção. Não conseguiremos nunca controlar o mundo ao minuto, sem falhas, sem quebras, sem entregas e sem pertenças. Quem ousou fabricar-nos, dotou-nos de um cariz relacional e social, e por muito que a individualização extrema por vezes nos pareça a solução para os problemas que nos cercam, por muito que a rigidez de atitude nos salvaguarde de quedas traiçoeiras, passado o tempo da cura, voltamos lá. É inevitável, não sabemos viver ausentes, e a fazermos tal entrega, a deixarmo-nos submersos por esta redoma que nos parece guardar, mais não fariamos do que aguçar a nossa fragilidade, atiçar as nossas lacunas, transformar a nossa existência num isolamento, crentes na certeza deste mundo tão incerto.
Puro desfasamento e descompasso. Uma falsa segurança, um medo de viver que nos impede o ajustamento e nos entrega à ilusão da convicção.

( Eu, pelo contrário e também desfasada, tenho medo de pouca coisa. O medo faz parte da vida, da morte, da existência.)

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