terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Mãos e prioridades

É dona de uma voz áspera, que arranha o próprio ar quando lhe sai da boca, vinda de umas cordas vocais histeriónicas, agudas, finas. Não é fácil arrancar-lhe de dentro de corpo sons mais amenos, mais doces, menos ofensivos. Dizem que foi do crescimento severo, da educação, mas eu não creio nestas teorias a cem por cento, creio apenas em certa parte, que de resto, e na evolução, múltiplos factores se entrelaçam intimamente, fazendo com que exista uma clara impossibilidade em isolar um deles, e em torná-lo responsável por certos reveses de feitio. Quem a cerca diz que não lhe conhece bons modos, sendo que apenas profere ditos amargos e acesos, destinados a contaminar a envolta com um veneno miudinho mas muito poderoso, que lhe escorre não só pela boca mas por todo o corpo, e de qualquer orifício que apanhe, tal o aperto. Posso jurar por exemplo que já lhe vi sair fumo de dentro das orelhas, um determinado dia em que se enfureceu mais a preceito, no qual ganhei sério medo que rebentasse, que por certo me atingiria com força bem como a toda a envolta. E o que lhe saltaria de dentro deveria ser suficiente para matar uns quinze ou vinte, de porte considerável, quanto mais a mim, uma pobre alma pequena e mirrada, com ar um tanto ou quanto cadavérico, conseguido com um punhado de anos em cima, e muito fastio desde a nascença. Dever-me-ia ter protegido, e desde pequena ter comido a bom comer, por forma a ganhar alguma resistência física aos males do mundo, pujança, arcaboiço, por assim dizer, coisa que de facto não ocorreu, motivo pelo qual treino a mente ao infinito, embora a pobre não aguente tamanhas malvadezas, é limitada neste campo.
Outro dia encontrei-a a esfregar as mãos com um creme gorduroso, fiquei intrigada. Por que raio haveria ela de amaciar o corpo, onde ninguém toca, ninguém sente, enquanto pela boca só lhe saem impropérios rijos e entufados, ditos austeros e poderosos, em total contraste com o corpo que cuida e amacia. Questionei-a, receosa, não fosse a malvada desconfiar da minha pergunta e arremessar-me com o frasco na testa, arremesso esse mais do que suficiente para me deixar em muito mau estado. Sorriu-me, quase que ensandeci. Resolveu explicar-me a preceito que uma mulher tem de ser macia, seja nova ou seja velha, isenta de impurezas no corpo, por forma a que o mesmo permaneça agradável ao toque, mesmo numa pele gasta pelo tempo.
Perante o meu ar intrigado pela incoerência encontrada, remata, aposto que as suas mãos não são tão macias como as minhas. Ela tem razão, eu também aposto que não.

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