segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Lost

Francelina tem oitenta e muitos e uma vida cheia. De filhos, de netos, de alegrias e desventuras, enfim, uma vida. Quis o destino que se perdesse por dentro, de si mesma, se é que me explico, a idade, traz estas coisas. Dirão os entendidos, que é a morte das células, das ligações entre si, que uma vez mortas, mortas estão, que não mais se restabelecem, deixando quem nela sucumbe, num mundo vazio, por cheio que tenha sido em tempos.
Julgo poder falar aqui em injustiça, se é que me é permitido tal abuso, de ousar baptizar os desígnios de Deus ou outro que por cá mande, com nomes fabricados por nós, humanos, para denominar actos deploráveis. Ainda assim, permitido ou não que me seja, existem matérias nas quais me concedo ao abuso, e esta será por certo uma delas. A recta final da vida é por si só difícil de ultrapassar. A solidão, a doença física e a incapacidade que muitas vezes se instala, já me parece a mim dose suficiente para que mais nada surja, mas assim não acontece, para infelicidade de muitos. A cada dia, mais surgem síndromes demenciais, um pesadelo que conheço de perto e que me deixa em mãos, pessoas que não se conhecem.
Na sequência lógica das coisas, se é que o termo lógico tem aqui cabimento, não se conhecem a si, para no seguimento não conhecerem os filhos, os netos, não saberem de quem as circunda, que um dia pode ser bom, no outro pode ser mau, num dia assume-se como protector, no outro como um perfeito desconhecido. Nos olhos destas gentes, encontro um vazio difícil de explicar, e quase impossível de imaginar, na sua real dimensão. Um não sei onde pertenço, que me assusta a mim, mais do que uma doença física, pela dor da perca. Nem deverá existir nenhuma maior, do que a de nós mesmos.

A Dona Francelina acabou de sair. Eu acabei de explicar-lhe quem sou, onde está e porquê. Saiu em paz. Amanha, provavelmente, volta para nova explicação.

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