segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Rosinha

Ensinou-me a fazer molho branco, que segundo ela, constituía a base de qualquer culinária, seja ela de que origem for, pelo que quando me ouviu inquiri-la, sobre o processo de sua feitura, abriu-me os seus grandes olhos azuis, e vociferou-me em alto tom, próprio de quem muito já lutou pela vida, e diz a menina que é uma boa cozinheira. E dizia, e dizia mal, de facto. Pesava cerca de cem quilos, era viúva há muito, de um marido vaidoso e mulherengo, que em nada lhe faltou em dinheiro, e muito lhe ficou a dever em carinhos e companhia, que valores mais altos sempre se levantaram. E quem diz mais altos, diz de maior interesse, que se entenda. Sua excelência era douto na arte da sedução, palavras de Dona Rosinha, sendo que não havia mês, não raras vezes em modo dobrado, em que não mandasse costurar no melhor Alfaiate da cidade, Sr Gonçalo, de seu nome, um fato completo, desde a calça, passando pelo casaco e pela camisa, que rematava, invariavelmente, com uma boina a condizer. Embora nem precisasse dela, a bengala acompanhava-o sempre, num compêndio indispensável e selecto, que em muito compunha a indumentaria pretendida. Passeava de manhã até ao fim da tarde, desde novo, que cedo se entregou à reforma, bem vinda que esta era a quem apreciava, tal como ele, uma vida de galanteio e diversão. Regra geral, não faltava para além do pôr do sol, sendo que a hora da janta, era para si hora sagrada, a fim de se repastar com os manjares de Dona Rosinha, manicura de profissão, cozinheira por opção, devoção e precisão.
Limou-me as unhas inúmeras vezes, em forma amendoada, em uso na época, quase sem vista, que as cataratas, quiçá derivadas das horas de choro infinitas, nunca secaram e quase a cegaram, sendo que realizava o seu trabalho quase às cegas, mas numa perfeição de meter cobiça, a muitas de boa vista. Recordo-me ainda o seu cheiro, a água de rosas forte, como que numa combinação perfeita com o seu ser, Rosinha, que assim terminava, pela doçura sem fim.
Demoliram-lhe por ora a casa. Ela, já se foi há muito, numa noite de inverno, nem sabemos como, sabemos que na manhã, já o seu corpo não tinha vida. Ainda a imaginava por lá, já toldada pelas pernas trôpegas, numa doença malvada que lhe levou a força física para longe, bem antes da sua partida.
Fica-me a faltar aquele sítio, para além dela. É uma das que tinha, muito mais para me ensinar.

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