terça-feira, 2 de novembro de 2010

Presenças


Há determinadas presenças que me intrigam, que quando passam na rua me fazem desviar o olhar, numa manifestação de profunda admiração. Nem ligo tal facto à beleza, ou a outra qualquer característica de fácil apreensão, e de carácter unicamente externo, que a pessoa possa apresentar. Prende-se, por norma, com ares de tranquilidade e calma, numa perseguição continua que lhes faço, pelo que as capto à distância, que sempre me chamam, quer eu passe perto, quer eu passe longe, chegando a haver vezes, em que julgo pressenti-las, imediatamente antes de as ver realmente, tal o agrado que me fazem sentir.
Uma das minhas vizinhas, por exemplo, mulher de um Médico falecido há muito, detém a serenidade estampada, num rosto simples e limpo. Desde sempre veste cores claras, quer seja Inverno, quer seja Verão, que variam entre o beije e os cinzas discretos, conjugados perfeitamente com o seu tom de cabelo e de pele. O sorriso, surge sereno e tranquilo, sempre assim o apresenta, numa aceitação ao que a vida lhe trouxe, que de tanto se ver por fora, duvido que não exista por dentro. Neste contexto, poderá quem me lê dizer, e muito bem, que nas coisas do interior e do exterior, as conclusões são delicadas, que o ar que se transmite para fora, poderá nem estar em consonância com o que vai lá dentro, facto com o qual não posso deixar de concordar, que em muitos casos a concordância será mesmo nenhuma, sendo que eu mesma, chego a ser a prova provada disso. Mas friso de novo, que nem me parece tratar-se aqui de tal situação, dado a carga de energia positiva que de si emana, desde sempre, na sua desgraça, e ainda hoje, após a perca, o arrumo e o renascimento.
Admiro também o sapateiro, já na casa dos oitenta, de boina ao avesso e bengala na mão, que ainda remenda sapatos todos os dias da semana, assim haja função, exceptuando aos Domingos, dia de descanso, e que contrasta em tudo com o velho que se encontra sentado mesmo a seu lado na paragem do autocarro, que lhes serve de albergue aos Santos Domingos, da chuva, do sol e do frio.
O tal, o do lado, só me transmite em seus olhos, revolta e amargura com o que a vida lhe trouxe. Coisa que até, é bem que se diga, a vida trouxe em muito pior ao sapateiro, que trilhou negros caminhos, ao lado de um filho que já o deixou há muito, que enveredou em tramas de uma figa, daquelas onde quem entra, dificilmente já sai, julgo explicar-me. Ainda assim, o sorriso nem por isso o abandona, e consegue ainda, no meio da sua velhice, recheada de nefastos percalços, afagar o outro, de vida mais fácil, mas de alma revolta, nem é caso único, todos sabemos disso.

Dois meros exemplos, dos muitos que encontro, de gente que na minha envolta, me causa uma admiração e cobiça, pecado mortal que assumo aqui sem qualquer reserva ou pudor, até porque, e costumo dizê-lo amiúde, a cobiça que lhes sinto, nem me faria roubar-lhes o que quer que seja, despoleta-me sim, uma vontade gigantesca de lhes aprender a ginástica interna, que de tão hábil, os faz emanar uma paz de espírito invejável.

1 comentário:

  1. Pois é desse estado de espírito, que até é mais meu do que este que ultimamente carrego, que tenho saudades. Esta tua descrição fez-me recordá-lo e como recordar é viver :):) obrigada por isso :):):)

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