terça-feira, 16 de novembro de 2010

Sr João

João veste uma camisola de lã vermelha, calças de fazenda castanha e boina, sempre gostei de ver Homens de boina, embora neste caso concreto, faça apenas e só parte da descrição, sem se me apresentar com qualquer efeito estético particular. Tem um bigode, mesclado a branco e cinza, exageradamente farfalhudo, que coça a todo o instante, ora com uma mão, ora com a outra, dando até impressão a quem olha, que o dito deva estar minado de pequenos bichinhos invisíveis aos olhos, mas perceptíveis ao portador, dado a instabilidade que reina, naquela bigodaça tamanha.
Georgette é a sua Senhora, uma mulher gorda e airosa que lhe vigia os passos desde o amanhecer até ao sol se pôr no horizonte, hora a que por norma o mestre regressa a casa, do dia de trabalho. Tem fama de boa esposa, que lhe prepara a janta, lhe zela a roupa, lhe corta as unhas dos pés e lhe lava a bacia de fazer a barba, que João já lá perde de fronte tempo considerável no aparo do bigode, sendo que de muito lhe vale a disponibilidade de sua Senhora, que a esse serviço se dispõe, como se de uma obrigação conjugal precisa se tratasse, quando ele tem perfeita consciência, que em nada assim é, e que as obrigações maritais passam por outros préstimos, não tão levados ao exagero no que toca aos cuidados, foi um abençoado por Deus, diz.
O controlo, desconfiado e afincado de Dona Georgette, que lhe ronda a lavoura, o persegue nos biscates diários, e o espreita quando joga dominó ao Domingo no café da Dona Zéza, nem o incomodam por demais, sendo que tudo isto lhe aceita com calma e tranquilidade. Prefere-a assim, mulher desconfiada e dedicada, do que a soltura, e o consequente desleixo.
É um felizardo o Sr. João.

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