segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Cheiros


A casa cheirava a borrego, cheiro que nem muito aprecio, que me relembra espaços passados há muito esquecidos, sem pressas para relembrar. Tenho episódios assim, que me surgem na mente por obra, não do acaso ou da sorte, mas do cheiro cheirado, que como sentido que se preze, a isso se presta com mestria e exactidão, cumprindo pois por completo a sua função, sendo que mais não posso do que louvá-lo, por muito que me transporte por terrenos baldios, perdidos internamente, e trazidos ao dia, apenas e só quando chamados por algo, que no resto do tempo, mantém-se reduzidos ao que são, ou seja, quase nada. O gosto da carne, esse, apraz-me desde sempre, mas nem por isso me traz os efeitos do cheiro, vá lá saber-se o porquê, de uma mesma coisa, me trazer à memória diferentes dimensões de um episódio, que a cheirar me perturba, e a provar nem me atinge em demasia, pelo que quando chega a hora da degustação, de forno já desligado e cheiro dissipado, me consigo concentrar no repasto e esquecer o resto, valha-nos isso, e valha-nos bem, que seria um tremendo desperdício, perturbar tamanho acepipe, numa mistura explosiva com memórias deploráveis, das quais só quero fugir.
No remate, as broas de mel, as broas de ovo, a mousse de chocolate, que se mistura efusivamente já na mesa, que desde sempre separa as claras do resto, como que numa tentativa infrutífera de nos fazer chegar a informação, de que nem quer fazer parte da família, coisa que de nada lhe vale, que ano após ano, festa após festa, encontro após encontro, a dita surge na mesa, pela mão teimosa da minha avó, que assim é em tudo, Dona Maria Carmina. A digna Senhora, continua ainda e bem, a moer grão de café no velho moinho cor de laranja, que café moído na hora, é café moido na hora, de sabor intenso, ao invés do deslavado apresentado, pelo moído e empacotado. Em tempos, fazia-me as delícias, e era com um prazer sem igual, que desfazia os grão numa operação limpa e precisa, um minuto, mais coisa, menos coisa, até de lá poder sair aquele pó preto e de cheiro inconfundível, que se misturava com água e nos dava café, liquido precioso, ao qual me vedavam o acesso, apesar do meu empenho na lida do pó.
Eu sei. O cheiro outra vez. Desta feita porém é o café, ao qual amo o cheiro desde sempre, com ou sem recordações.

2 comentários:

  1. Diz a ciência que o olfacto é o sentido com maior poder de evocação de memórias. E digo eu que as memórias olfactivas são as que guardamos com maior precisão.
    :*

    ResponderEliminar

Deixar um sorriso...

Seguidores