domingo, 31 de outubro de 2010

Apegos e desapegos, ou de como há apegos dos quais não desapegamos nunca...

O fim de algo é sempre o fim de algo, e quando finda algo de que gostamos, seja situação, gente ou o que for, o sentimento experimentado em nada nos agrada, que de resto, e detentora de algumas percas, ainda nem bem consigo pôr por palavras, o que sinto quando se esvai em fumo, o que quer que seja que já me fez feliz, e que por motivos de força, vai deixar de fazer. É nossa natureza o apego, que dele necessitamos quase como do ar que respiramos, tenho até para mim que na sua falta, entraremos numa desorganização interna total que nos deixará à deriva, sem eira nem beira, ou melhor, sem poiso e sem canto. Porém, e analisando mais a fundo, julgo que tal coisa talvez nem bem seja possível, que por muito que a solidão nos invada, por muito que nos afastemos das gentes que nos circundam, nunca conseguiremos entrar num total vazio de relações, sejam elas mais ou menos fortes, sendo que nos vamos pegando sempre ao longo da vida, característica típica do ser social que constituímos. Daqui decorrem invariavelmente as percas, que tanto nos afligem, mas que só vivenciamos porque apriori tivemos os ganhos, que tanto nos deram, é a vida, há quem diga assim.
Hoje olhei-as nos olhos e senti-lhes o sofrimento, que choram a mãe que as deixou, a quem tinham um afecto tremendo. Dona Maria jazia há muito em vida, que nos terrenos do mundo, tanto já vi, que já vi também muito do que não queria, que pouco haverá mais deplorável e penoso, do que gente que em vida já morreu, e que nos mira de olhar que já nem vê, numa completa mercê que me assusta a mim, mais do que qualquer outra coisa, que possa atacar directamente a minha existência.
Sinto-lhes o alívio, pelo sofrimento que lhe coube em vida, se ter finado de uma vez, que se há gente que Deus ou quem for, tratou incapazmente, foi por certo esta criatura, que veio ao mundo com um triste fado, desde o nascimento até ao fim dos seus dias. Nem bem percebem o porquê de tanta amargura, que já que a vida e os seus caminhos, tanta infausta lhe trouxeram, poderia ao menos a morte ter-lhe reservado algo de mais repentino, menos sofrido, por assim dizer, que há tanta morte santa por aí, em que no meio de um sono sossegado, se respira uma última vez sem aviso prévio, e pronto, chegou o fim. Mas não, nada disso aconteceu, numa infeliz concordância dos percursos terrenos, triste foste em vida, triste hás-de ser em morte, e assim o destino se cumpriu .
Pelo que o que lhes olho nos olhos, nas duas de igual maneira, é uma leitura que já li em outros, bem de perto, por sinal. Que mistura o alívio de ver partir quem sofre, com a dor da perca eterna de alguém que não volta mais. Intercala-se entre o choro e o riso, entre a saudade que já se sente, e a serenidade que acarta o fim, do sofrido que sossegou, mas ao qual estamos pegados. Ou melhor, vamos estar para sempre, que há apegos e apegos, e há deles, que não mais nos largam, ainda que fisicamente, nos tenham deixado há muito.
Particularidades dos sentimentos que sentimos, arrumamos e encaixamos, mas que num poder absoluto, desafiam a nossa humilde existência, que mais não pode fazer, a pobre, do que subjugar-se sem opção, aos sentimentos sentidos, já sem direcção física. Provações, chamemos-lhe assim.

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