quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Das lojas da nossa terra


Ainda acredito em impossibilidades, tal como o facto da Asae, ou outras entidades de fiscalização, ignorarem por completo diversos locais, que se mantém iguais há anos, décadas, julgo poder dizer.
Alice tinha uma voz nasalada, coisa que em muito me fascinava em criança, nem nunca tinha visto nada assim. Vendia por detrás de um balcão de mármore, com umas prateleiras envidraçadas onde arrumava a bolacha Maria, os pacotes de arroz, o detergente presto, o trigo para os animais, entre outras inúmeras coisas. Em cima do mesmo, depositava sacos de beijinhos doces e bolos secos, que ela pesava na balança de pratos, que contrabalançava com mestria, numa tarefa que me intrigava verdadeiramente. Os géneros eram embrulhados em papel pardo, grosseiramente rasgado, que deixavam na loja aquele cheiro característico que ainda hoje recordo. Teria eu uns oito anos, quando surgiram pela primeira vez iogurtes lá na loja, que Alice guardava com cuidado no frigorífico da casa de habitação, paredes meias com o estabelecimento, sendo que o espaço da família, albergava ainda a taverna do Zé Fernando, marido de Alice, onde se comiam pevides e tremoços, e se bebia sumol, laranjina, cerveja e copos de tinto.
Ainda existe tudo aquilo.
Entro por mero acaso ontem, numa mercearia de aldeia. O cheiro assemelha-se, a dona, não se chama Alice, nem tem voz nasalada, mas chama-se Zézica e usa um avental florido, cabelo armado ao alto, e tem um marido com um café ao lado. No mesmo espaço, vende rebuçados, pão, bolos secos, mercearias, arrumadas estratégicamente em alguidares de plástico, tudo isto, ao lado das prateleiras dos detergentes, do material grossista, das ferramentas de obras. O collant que necessitei por acidentes do dia, também encontrei, que nem sendo bem o ideal, de muito me serviu, que o tempo já não se presta a perna de fora, coisas do Outono.
Na saída, passo pelo velho barbudo, de boina na cabeça, que lê o correio da manhã de palito no canto da boca, e sorri. Os oito, já lá vão há muito, mas algures, em determinados sítios, quase lá chego outra vez.

1 comentário:

  1. O Zézica, lembra-me a minha tia do Espinheiro, para mim - lembras-te quando vinhas para aqui quando eras pequenico?

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