sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Há trinta e quatro anos...

Era manhã. O dia estava de um Outono cinzento, como hoje, mais coisa menos coisa. Ele sai, como sempre, em direcção à labuta do dia, um militar voluntário, que aos dezoito decidiu servir a Pátria, e serviu muito bem. A barriga dela em sossego, apesar das nove luas, nem parecia dar sinais de querer vazar. Rede telefónica nem existia na aldeia, pelo que foi, está ido, que não mais se contacta até ao regresso, no final da tarde, nasça que não nasça, venha quem vier.
Levanta-se a meio da manhã, e a barriga já pesa. Uma qualquer moinha desconhecida atinge-lhe as costas, nem bem percebe o que é aquilo, pelo que se socorre de Rosalina, a Bisa, poderá ela saber do que se trata. Rosalina, mãe de cinco filhos sabia. O bebé quer vir cá para fora, diz-lhe, do alto dos seus setenta, vestes sóbrias e pretas, lenço atado ao pescoço, não fosse o frio apanha-la, que era de coração fraco, dizia ela, que julgo ser mentira tal coisa. Isso são as dores de parto, chamemos então a parteira. Ela, nem se sente muito segura e prefere ir para o Hospital, ao que Rosalina torce o nariz, mas anui. Modernices.
Carros nem haviam muitos por ali, Baptista, o avô saíra para a lida, e eis que aparece Romeu, um tio cinquentão que gostava de pinga, mas dado ser ainda manhã, o seu estado era relativamente sóbrio. Romeu tinha um Renault 5 amarelo, onde ela entrou juntamente com a mala de cartão há muito já feita, e seguiu caminho, contraindo-se amiúde, quase já de minuto a minuto, que o tempo tinha corrido, na procura de saber que dores eram aquelas, na busca de transporte, enfim, percalços morosos.
No Hospital mais próximo foi deixada com a mala, apenas e só, que Romeu regressou à terra. Um tanto ou quanto amedrontada segue o seu destino, ao que lhe aparece uma Freira parteira que trata dos procedimentos. O nascimento estava para breve, e a célere Senhora deu-lhe o andamento devido. Nasceu na tarde, e era menina. Pequena, careca, cabeça de laranja, e choro intenso, foi embrulhada numa manta branca de tricot, feita à mão pela avó.
O pai só soube do nascimento quando chegou no final da tarde, e nem era preciso antes. Tinha tido uma menina, que alegria tamanha, embora um menino fosse o desejo, mas não importa, haja saúde.
Nessa noite a pequena chorou até mais não, ao ponto de ter de ser levada para longe, que sua mãe necessitava descanso, nada era como agora, e a proximidade materna nem era tida em atenção, pelo que foi obrigada a chorar no berço, bem longe do aconchego do seio, que de resto, era seco, e pouco valia.
Voltaram a casa uns dias depois, a mãe de lenço na cabeça, não fosse interromper o recobro, e alguma desgraça aparecesse. Uma cesta de verga comprida servia para aninhar a bebé, que ao invés disso foi ao colo, que a época assim permitia, sendo a pobre tão pequena, ainda poderia perder-se dentro da cesta, antes do fim da viagem.
Na casa, já com electricidade, mas ainda sem água, começou uma nova vida, faz hoje trinta e quatro anos.
A história acima foi vivida por minha mãe. Ela diz que a bebé sou eu.

6 comentários:

  1. Como o tempo voa...e após este ano volto a desejar-te o mesmo que há um ano atrás (provavelmente). Que tenhas um dia muito feliz junto dos que mais amas e que o próximo ano te permita concretizar os teus sonhos...

    Jokinhas

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  2. Muitos parabéns CF. Muitos sorrisos :):):)

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  3. Parabéns CF!!!
    Fizeste-me chorar!!! E puseste-me um sorriso na cara!!
    Obrigada
    bjs grandes

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  4. Muitos parabéns!!!! Que contes muitos com saúde, amor e sucesso, que valentia já tens :) Eu sei que estas coisas se dizem sempre mas nem sempre são sentidas :) Estas são :)
    Um grande sorriso para ti.

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