quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Aletria Doce


Fernanda fazia aletria doce como ninguém, havia quem o dissesse. Vivi na casa dela uns anos, enquanto estudava Psicologia, que ia aplicando logo ali, ora nela ora no marido, um casal de velhos, ela gorda e viçosa, ele magro que nem um aipo. Ela pouco fazia, que a idade já era alguma, o peso mais do que muito, e as tábuas de passar a ferro, a quem deu vencimento anos a fio, davam-lhe agora cabo das costas, e da espondilose, vulgo bicos de papagaio. Ele era pastor, coisa que nem sendo verdadeira na cidade de Lisboa, lá bem perto o é, nos arredores, em Loures, mais precisamente. Saia de manhã bem cedo, e regressava já noite dentro, cansado de meter dó, com o saco da merenda vazio na algibeira. Chegava a ter-lhe pena, que a mulher nunca estava satisfeita, e arreliava-o até mais não, com a hora matutina da saída, a hora tardia da chegada, e o cansaço que trazia, que pouco mais o deixava do que aterrar no sofá, aguardar a janta e enfiar-se na cama, para a qual se arrastava gemendo retorcido.
Eu, alma piedosa, intercedia a favor dele, pobre mortiço, que me metia uma pena infinita pelas horas de trabalho passadas ao relento, e que ao invés de receber afagos na chegada, recebia coices, bem piores do que os que levava das cabras que pastava. Era para bem, dizia-me ela, que o queria em descanso e não a trabalhar de sol a sol, mas ainda assim, tinha-lhe dó, que muitos nem saberão o que é levar com a ira de uma mulher contrariada. Terrível.
Aos Domingos, era dia de Aletria. O velho folgava, e Fernanda, num puro manifesto de agrado, uma tentativa de suborno, pode dizer-se, presenteava-o com tal acepipe, sabedora que era da sua afeição, ao qual ele lambia os beiços de satisfação. Na minha espera encontrava invariavelmente um prato. Daquela massa muito fininha, cozida em leite, ovos e açúcar e polvilhada de canela, que eu enjoei logo à partida. Apesar disso, na primeira opinião solicitada, levei-me de boa educação e vergonha, gabando o pitéu, e má hora o fiz. Dai para a frente, todos os santos Domingos, um prato cheio aguardava-me, às vezes morno, às vezes não. Uma boa parte do repasto, era suposto ser comido logo ali, com lambidelas de satisfação e ares de profundo agrado, que o velho, olhava-me deliciado, como que a esperar a minha aprovação ao manjar de sua Fernanda.

Isto tudo para dizer que hoje me deram alcachofras. Provei, não gostei e não comi.

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