quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Neve

A NEVE (a)

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim...
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim...

É talvez a ventania;
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento, com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
Há quanto tempo a não via!
E que saudade, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
de uns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
- depois em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos... enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na natureza...
– e cai no meu coração.

Augusto Gil - Luar de Janeiro, 1909
Tenho dias, vá lá saber-se. Alguns de memória intensa, recuos ferozes, sensações fortes. Havia quem me recitasse este poema, que quase sabia de cor.
Perdi-o há tempo, encontrei-o por acaso. Apaixonei-me outra vez.

1 comentário:

  1. LOL Sabes que eu sei isso tudo de cor desde os meus sete ou oito anos que foi quando me obrigaram a decorá-lo para o dizer numa festa de natal do colégio onde andei?!!! É que nunca mais me esqueci do raio do poema! Nem que tente, com ele, fazer graça do estilo «...como quem chama por mim...»/ó mamã quero fazer xixi...Nem assim me consigo esquecer!

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