sábado, 23 de outubro de 2010

Caminhos

Cruzo no caminho inúmeros carros.
Os enfeites, de tule rasco amarrados com nós cegos nos espelhos, dizem-me do que se trata, e para o caso de duvidas haverem, de que alguém neste dia, nesta terra e àquela hora acaba de se casar, surge-me a noiva no fim, dentro de um carro descapotável, ao lado de quem por certo será o noivo. Fico ali presa, sem ordem de passagem, coisa que me ocorre mais vezes em funerais, mas que hoje se revelou num casório, que poderão até julgar ser menos ofensivo, ao que vos digo que estão redondamente enganados, que nem uma nem outra me satisfazem particularmente.
A estrada está estreita, devido às obras nas bermas, não vá iniciar-se a estação das chuvas, sem tal tarefa estar cumprida, seria um assunto sério, facilmente condenável pelas gentes da aldeia, que ganham os seus dias para analisarem a fundo as mais diversas tarefas da Autarquia e Juntas de Freguesia, e há erros, que nem se toleram. Não neste ano preciso, 2010, que surgiu imediatamente depois de 2009, ano em que por mor de um descuido, muitas bermas resvalaram, deixando à mercê das intempéries as casas postas na beira da estrada, fraco lugar para se morar, mas que por ora, habitado está, nada havendo pois a fazer-se, a não ser o cuidado, que este ano cedo começou, um bem hajam a quem dele tratou.
Está tudo isto muito certo, que as gentes têm razões de valor, que a obra tem de ser feita, as chuvas têm de ser escorridas, as valas têm de ser varridas, tudo isto, enquanto alguém da terra se casa, porque também isso tem de ser feito, sendo que poderemos até considerar, que nenhuma ligação se encontra entre tais factos, seria o mais correcto, se neste mundo não estivesse tudo intimamente ligado.
Temos por exemplo algo que pouco pode importar, mas que não deixa de ser digno de referência, e que trata o estado interno de quem se possa encontrar, dentro dos largos carros que esperam, entre os quais o meu, que num lado vêm a berma, suja e encardida, e do outro a felicidade do casal, acabado de se casar.
A festa passou, os outros passaram e eu passei também. E nem por isso gosto de valas, casamentos e longas esperas.

1 comentário:

  1. Porque será que tens um timming perfeito em falar sobre determinadas coisas? É sempre assim. E sempre que leio...dá-me vontade de chorar. Não, não estou deprimida. Simplesmente tenho muito para resolver na minha vida. E não sei como.
    bjs

    ResponderEliminar

Deixar um sorriso...

Seguidores