terça-feira, 5 de outubro de 2010

Vizinha

A infelicidade da minha vizinha causa-me arrepios, muitas vezes e especialmente quando me cruzo com ela na escadaria do prédio, local onde muito já me confidenciou, carregada de sacos, com olhos encovados e de cabelos baços. O marido vai muitas vezes atrás, outras tantas não vai, que se perde na taberna da esquina, coisa que até acho que devia ser banida, mas isso sou eu, que tenho qualquer coisa pessoal contra tabernas, confesso. Há por aí muito boa gente que lá se deleita, entre uma imperial e um prato de amendoins, e eu, pobre de Cristo, nem deveria ousar acabar com tal desfrute. Ainda assim ouso, que ouso o que bem entender, ainda para mais que as minhas ousadias, estas, pelo menos estas, de pouco me valem, não passando de meras projecções internas sem concretização possível, e sendo assim, admito, finariam ainda outras coisas. Mas adiante. A minha vizinha morre todos os dias um bocadinho. Bem sei que por ora devem zombar do que digo, que morrer todos os dias um bocadinho, morremos todos, que nesta vida o caminho é mesmo esse, e nada temos mais certo, tal e qual me dizem os meus velhos, cobertos de razão, que ninguém lha tira, aqui e noutras verdades. Morre um bocadinho quando sobe a escada defronte a ele, que a impulsiona com destratos e a faz chegar mais depressa. Morre um bocadinho quando lhe atura o bafo de álcool, noite dentro no leito. Morre um bocadinho quando lhe prepara o jantar, que nem nunca sabe se vai servir ou não, depende da hora do regresso. Morre um bocadinho quando ouve afrontas de nada fazer, quando na realidade se esvai em trabalho, dias, noites e feriados santos, a fim de dali sair sustento a todos, e ainda à pinga e ao fumo do senhor, escrito em letra bem pequena, porque assim o entendi. Morrer todos os dias um bocadinho, poderá até ser uma realidade comum a todos, desejava porém uma nova, em mais uma ambição sem sentido, utopia, o que queriam chamar-lhe, que era juntar vida a esse caminho para a morte, que de tão certa, nem vale a luta que alguns lhe fazem todos os dias.

4 comentários:

  1. Faz muito sentido, adorei. Desculpa a invasão, mas não resisto em seguir.

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  2. Será que a tua vizinha não se pode libertar? E morrer um bocadinho mais devagar?

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  3. Poder até podia... Talvez não consiga, nem sei bem que diga, que já vi tanto disto por ai...

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