sábado, 23 de outubro de 2010

Lado B, e a importância das palavras

No Lado B sentou-se Pedro Paixão. O ar igual ao de sempre, frases encadeadas ou não, umas em molde de encaixe, outras perdidas e soltas, de tão isoladas em si.
Encontra-se a escrever um novo livro, ao qual vai chamar qualquer coisa alusiva ao tema, de matar de novo algo, que, e muito embora nem tenha especificado e bem, que a nós chegará quando assim tiver de o ser, me diz que tratará o amor, como de resto tratam a maioria das suas obras, que nele se concentra numa ambição desmedida, quiçá de compreensão, quiçá de busca, como ele próprio profere.
O sentimento que assim se denomina, o amor, doce e poderosa palavra, que antagónicamente se nos apresenta amiúde sob a forma de dor, tem destas coisas, que matá-la, num desafio à palavra, poderá nem nunca ser definitivo. Matar um ser vivo, algo que se liga a uma qualquer fonte física e manifesta, quer seja uma planta, um animal, um ser humano, permite uma eficácia concreta, fenómeno que a ser praticado, nos permite usar a expressão que tanto venero, de cortar o mal pela raiz, pela impossibilidade de dali se surgir de novo, que nem por isso há renascimento após a morte do cordão essencial. Nos nossos sentimentos, também em outros, bem certo, embora por ora fale de amor, a precisão está longe do nosso alcance, que poderemos até, num acto de força, coragem, vontade ou desilusão, julgar matá-lo, morte essa que será sempre débil, fraca, susceptível de retorno, ou seja, não é morte nenhuma.
A bem ser, arranjaríamos outra, que a substituísse, que nos permitisse a nós, seres humanos, carecidos de apelidar com palavras fortes as nossas tormentas internas, apelida-las, mas que não nos traísse, que dou valor a essas coisas, e que definisse, de forma genuína, o que realmente praticamos ao tal do amor.
Qualquer coisa entre adormecimento, arrumo, descanso. Morte é que não.

Ainda assim, e num jogo de palavras que a mim me fascina, o autor irá por certo matá-lo, de novo, como ele próprio diz. Quem sabe, nos urge mesmo usar o termo, que em tempos de luta, ou luto, que até talvez aqui se aplique melhor, o poder de expressão usado tem uma influência quase absoluta, pelo que também eu já matei amores.
Para sempre ou não, é coisa que nem importa. A ser caso disso, matá-los-ei então outra vez.

3 comentários:

  1. E é quando acreditamos tê-lo matado de vez que o estupor volta em toda a sua pujança! :):):)

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  2. Vi a entrevista do Pedro Paixão ontem e apeteceu-me escrever alguma coisa sobre ela. Mas o que poderia eu acrescentar a este post magnífico?

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  3. Não vi, e tenho pena, porque adoro o Pedro, de Paixão. :) Escritor brilhante e ser humano intrigante (to say the least). Não acho que sejamos capazes de matá-los, aos amores. Sempre ficam vivos, mesmo depois de terem acabado, arrumados como dizes. E isso é a memória da humanidade de nós.
    =*

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